sábado, 10 de novembro de 2012

EVOLUÇAO HISTORICA DA CIENCIA DA GRÉCIA ATÉ AO SÉCULO XVII


 
 
 

EVOLUÇAO HISTORICA DA CIENCIA DA GRÉCIA ATÉ AO SÉCULO XVII

 

Os primórdios da ciência devem ser procurados na Grécia, ao lado da filosofia. Quando Tales de Mileto (séc. VI a.C.) apresentou a água como elemento primordial que deu origem a todas as coisas (arqué),estava a dar o primeiro passo no ca­minho da ciência, como resposta objetiva para um problema definido. A água é um elemento concreto, bem determinado, indispensável à vida das plantas e dos animais e presente nos três estados ( sólido, líquido e gasoso). Tales estava a romper com mentali­dade mítica, que explicava tudo inventando deuses e deusas, ao sabor da imaginação e de algum acontecimento invulgar.

No mesmo tempo, Pitágoras e os seus discípulos interpretavam matematicamente a realidade, que era constituída por números e relações numéricas, como se tivessem a antevisão do que viria a ser uma das principais características da ciência moderna, a par­tir de Galileu.
A distinção entre o conhecimento vulgar (doxa) e o conhecimento racional (epis­téme) foi feita por Parménides, no século VI a. C. O seu empenhamento na valorização do conhecimento racional levou-o a afirmar que não havia movimento.
Platão aceitou a epistéme e a matematização defendidas pelos filósofos anterio­res, mas remeteu a essência das coisas para o Mundo das Ideias. A forma mais perfeita era o círculo. As formas das coisas participavam das Ideias matemáticas. À entrada da Academia de Platão estava escrito: "Ninguém pode frequentar esta Academia sem saber matemática ", O principal motivo do entusiasmo de Platão por esta ciência, terá sido o rigor do raciocínio matemático, disciplinador do pensamento.
Aristóteles não concordava com Mundo das Ideias platónico. Atribuiu à ciência as características seguintes:
a) É um conhecimento universal, isto é, válido para qualquer observador:(não há ciência do particular);
b) É um conhecimento necessário, isto é, que não sofre mudanças, ao sabor das circunstâncias: (não se faz ciência do contingente);
c) É um conhecimento essencial, isto é, voltado para os aspetos substanciais (não se faz ciência acerca do acidental).
d) A ciência constrói-se por indução ou dedução,
A física de Aristóteles reuniu os conhecimentos dos filósofos pré-socráticos; apre­sentou uma resposta sincrética para o problema do arqué, falando dos quatro elementos: água ar, terra fogo; elaborou a teoria do hilemorfismo (matéria e forma) para explicar a individualização dos seres; definiu substância (aquilo que as coisas são em si mesmas) e acidentes (o modo como as coisas se nos manifestam), realçando o interesse do estudo das substâncias, para a ciência. Os seus ensinamentos permaneceram quase inalterados até Galileu.
 NOTA: Aristóteles desvalorizou a importância da matemática para a ciência física, influenciado pelas críticas irónicas de Zenão aos pitagóricos, que deduziu, por lógi­ca matemática, que uma seta nunca pode atingir um alvo, nem o veloz Aquiles pode apa­nhar uma tartaruga pachorrenta.
 Euclides ( séc. lII a C.) organizou os conhecimentos de Geometria do seu tempo de modo sistemático. Pode considerar-se o iniciador da autonomia da matemática em relação à filosofia. Partindo de axiomas evidentes, da noção de ponto, de segmento de reta e de alguns postulados, formulou teoremas, definiu relações entre figuras geo­métricas, com tanto rigor, que se impôs sem contestação até ao século XIX. Então, apareceram as geometrias não-euclidianas, com um fundamento axiomático diferente, que se tornaram alternativa, mas não destruiram a geometria euclidiana.
 
No mesmo século lII a.C., viveu Arquimedes que se celebrizou pela descoberta do princípio da impulsão dos corpos mergulhados num líquido, (que deu origem à inter­jeição "eureka '') fundamental para a construção naval e para a construção da balança hidrostática. Fez descobertas importante no campo matemático que procurava aplicar em situações técnicas. Atribui-se-lhe a afirmação: "Deem-me um ponto de apoio e uma alavanca e eu levantarei o mundo ". Esta aplicação das descobertas científicas ao domínio técnico só teve seguidores na ciência moderna.
 
No séc. II merece destaque a obra de Ptolemeu, que fundamentou matematica­mente o geocentrismo, dando solidez cientifica à evidência imediato dos sentidos de que a terra era imóvel e de que o sol, a lua e todos os astros descreviam órbitas (epiciclos) à sua volta.
 
A cultura romana não deu grande contributo para o desenvolvimento nem da ciência nem da filosofia: Os romanos notabilizaram-se na política, na oratória e na estratégia militar. ( Não se pode ter tudo!).
 
Durante a Idade Média, a maior parte dos nobres não tinham qualquer motivação cultural: gostavam de caçar, de fazer guerras, de se divertir. Coube aos monges a tarefa de manter o interesse pela cultura livresca. As exigências da teologia implicavam o inte­resse pela filosofia, pela retórica e pela gramática, sempre em função dos objetivos teológicos. Dizia-se então: "A filosofia é a escrava da teologia" porque só se abordavam temas e autores filosóficos, na medida em que tinham interesse para as questões teológicas. A matemática mantinha-se como um conhecimento importante e independen­te tendo-se apenas ligado à astronomia o que possibilitava a previsão bastante rigorosa dos eclipses. Mas a fisica e a biologia continuavam a ser capítulos da filosofia e repe­tiam sem alteração as ideias de Aristóteles. A química era, sobretudo, objeto da curiosi­dade dos alquimistas que procuravam descobertas sensacionalistas, sendo a mais célebre, a da "pedra filosofa!" , capaz de transformar pedras em ouro.
 Não havia experimentalismo, em parte porque se aceitava a física de Aristóteles como definitiva, em parte porque se admitia que a evidência dos sentidos nos trazia a plenitude da realidade observável - realismo ingénuo. Quando surgiam situações dificeis de explicar, como o aparecimento de micro-organismos (e até de ratazanas nos montes de lixo) remetia-se a explicação para a "geração espontânea" em aberta contradição com a rígido fixismo das espécies e do criacionismo, expresso na Bíblia.
 
O Renascimento (séc. XV e XVI) caracterizou-se pelo despertar dos nobres para a cultura.(Finalmente!). A laicização abriu o campo das motivações culturais, dei­xando as questões de teologia para os clérigos e semeou um grande entusiasmo pelos autores pagãos, gregos e latinos. abalando o monopólio da teologia.
 Francisco Bacon (séc.VI) ao construiu tabelas de presença e ausência dos fenómenos iniciou o experimentalismo, desconfiando da evidência imediata dos sentidos e da física aristotélica.
 Nicolau Copérnico (S.XVI) deu a grande machadada no pensamento escolás­tico com a obra de "As revoluções das orbes celestes ". Servindo-se da linguagem autó­noma da matemática, partiu da hipótese de que o movimento dos astros se processava à volta do Sol (heliocentrismo) e não da Terra (geocentrismo) e concluiu que tudo se explicava de modo mais simples. Ora Deus, inteligência pura, tinha de fazer o Universo do modo mais simples possível. A morte de Copérnico antecipou-se à condenação das suas teorias evitando-lhe assim, as minuciosas justificações diante dos inquisidores.
 Os Descobrimentos do novo mundo, em que os Portugueses foram protagonistas, contribuíram também para a fragmentação do domínio teológico. O acesso a novas terras, o encontro com novas culturas e a confirmação de que a terra era redonda, vie­ram baralhar a harmonia monolítica do pensamento medieval. Não admira pois que apa­reçam, neste período, autores a contestarem, de modo radical, todo o conhecimento estabelecido. O livro do médico e filósofo de Braga, Francisco Sanches "Quod nihil scitur" ( Que não se sabe nada) e os "Ensaios" de Montaigne, deixam transparecer um ceticismo acentuado.
 
GALILEU E A CIÊNCIA MODERNA (Séc. XVIl)
 
Se não fossem os senhores da Inquisição a condenarem Galileu, por causa da sua defesa do heliocentrismo, provavelmente, o nome deste pensador italiano, não aparece­ria tão intimamente ligado a este aspeto da revolução cultural. De facto, Galileu dei­xou-se seduzir de tal modo pela teoria de Copérnico que começou a ensiná-la e a fun­damentá-la experimentalmente, através da "luneta astronómica" - um telescópio rudimentar que ele inventou para mostrar que na lua "havia montes e vales" e não era uma substància vítrea, como dizia Aristóteles. Porém as suas provas não eram tão con­cludentes que bastassem para convencer muitos cientistas da sua época, tais como o astrónomo Tycho Brahe, dinamarquês que discordava de Copérnico e não se assuntava com a Inquisição.
 
O grande contributo de Galileu para a ciência moderna foi a matematização do real. Constatando a inutilidade da pesquisa especulativa e silogística dos aristotélicos, à procura de essências e substâncias, rejeitou essa tarefa e teve a intuição de que o Uni­verso, feito por Deus todo-poderoso, tinha de ter uma estrutura tão coerente e lógica como a própria matemática. Além disso, o conhecimento matemático eliminava de vez as disputas intermináveis dos filósofos escolásticos, muitos vezes sobre questões de "la­na caprina". Ao restringir o campo de investigação científica à perspetiva quantitativa, Galileu pôs de parte as questões acerca das substâncias ( por serem inacessíveis) das qualidades ( por serem subjetivas).
 Poder-se-á dizer que Galileu se limitou a ressuscitar a velha teoria dos pitagóricos da base matemática da realidade? De modo nenhum. Galileu, antes de construir uma teoria matemática interpretativa da realidade (hipótese), observava criticamente a natu­reza, procurando desocultar os segredos do rigor das suas leis. A observação racionali­zada podia até estar em contradição com a evidência imediata (como acontecia com o movimento não-sensível da Terra), mas Galileu, quando elaborava a hipótese, trabalhava sobre os dados criteriosamente recolhidos, não se deixando impressionar ou distrair pelos aspetos não quantificáveis. (Por exemplo, quando observava o isocronismo das oscila­ções do candelabro da catedral de Pisa, durante a missa, não se distraía com o espectá­culo da luz a incidir sobre as damas presentes na cerimónia, mas concentrava-se na hipótese das leis do movimento, que teriam, como primeira aplicação técnica, a construção dos relógios de pêndulo). Havia assim uma dupla garantia de verdade: a dos sentidos e a da razão, em recíproca vigilância. Galileu conjugou o experimentalismo de Bacon com o matematismo de Copérnico. O entusiasmo de Galileu pelo seu novo método leva-o a dizer que a ciência matematizada era um caminho mais rigoroso de conhecimento de Deus que a própria Bíblia, que está escrita numa linguagem figurativa adequada aos ignorantes enquanto que a linguagem matemática permite conhecer as leis do universo tais como Deus as elaborou.
 
Galileu ainda não estava satisfeito. Para evitar um matematismo desviado da reali­dade concreta, era preciso submeter a hipótese à experimentação para verificar a sua adequação. Criou então alguns modelos mecânicos, (ou instrumentos laboratoriais, como o plano inclinado e o telescópio) capazes de garantir, pela repetição da mesma experiên­cia, um grande número de vezes, que o fenómeno obedecia rigorosamente à hipótese. Se tal não acontecesse, a hipótese mantinha o seu valor na matemática pura, mas seria preciso investigar mais e melhor para encontrar a lei da natureza que se procurava.
Galileu revelou uma intuição genial na aposta que fez no novo método. Quando contestou a fisica de Aristóteles, e o geocentrismo não tinha garantias suficientes da ver­dade da sua opinião. Podia ter falhado, mas não: abriu o caminho para a ciência que se manteve, quase sem contestações, até meados do século XIX. Na ciência, como na vida, além de um esforço muito persistente, de muita inteligência, é também preciso um pouco de sorte.

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